Literatura, filosofia, cultura e geopolítica contra a corrente.

Após alguns anos de espera, seu Senso Incomum voltou com banho de loja e novas missões e desafios – e mais estante e menos política

Após quatro anos de longo silêncio em nosso site, este Senso Incomum retorna à sua missão de salvar o Ocidente – exceto Vila Madalena e adjacências – em grande estilo: com roupa nova, estilo novo, banho tomado e novos motivos para reclamar e citar a Grécia Antiga aleatoriamente. 

Nestes anos tivemos muitas mudanças e motivos para reflexões – para o bem e para o mal. O principal é que essa pausa nos serviu para notar alguns problemas em nossas missões. Sempre quisemos chamar a atenção das pessoas para assuntos mais elevados do que meras notas jornalísticas, que pipocam rapidamente (e repetidamente), ficam empacadas em um nível superficial do pensamento, e aproximam-se mais do entretenimento vulgar do que da formação de uma visão de mundo, apesar do assunto aparentemente “sério”. 

Por isso, tentávamos usar notícias para chamar o público para textos mais elevados – de formação, não apenas informação – a alguns cliques de distância… mas, mesmo tentando vários modelos, fracassamos miseravelmente neste mister. 

Escrever para a internet é uma tarefa com suas glórias e inglórias – e vanglórias. A aposta no contrário do ditado pelo marketing – em densidade, ao invés de clique desatento, número pelo número – tem seu custo, não apenas em público, mas em tempo, investimento e retorno. 

Além disso, temos de lidar com as modas e mudanças de comportamentos coletivos do próprio público. Uma coisa era escrever para a internet antes dos smartphones, quando todos liam em computadores – privilegiando uma informação mais detalhada que não tinha espaço na grande mídia. Era um misto curioso de clima de fanzine com baixo investimento e de conhecimentos mais profundos do que o da academia. Uma estética underground para uma temática não raro cult. Naquelas priscas eras, podíamos contar um pouco mais de paciente tolerante do leitor, sem a pressa da era dos tweets, vídeos, reacts, reels, shorts e outras formas de comunicação baseadas na pressa e no domínio do algoritmo, preconizando a repetição e as palavras-chave. 

Hoje, o tráfego é majoritariamente feito por celulares. Estamos mendicando atenção não de leitores querendo mais informações do que encontram no jornalismo, mas muitas vezes com feeds infinitos, áudios e grupos com centenas de pessoas comentando o mesmo sobre o mesmo assunto, dito e redito pelos mesmos produtores de conteúdo de sempre. 

O algoritmo – o mundo – favorece a repetição. Estamos cada vez mais conectados, com o equivalente a muitas bibliotecas em nossos bolsos – e a cada dia mais superficiais, com menos vocabulário, com conceitos mais quebradiços. O pensamento por clichês e frases prontas é o sonho de todos os ditadores e totalitários, ainda que as massas creiam que estejam indo contra uma Rede Globo ou os grandes banqueiros e corruptos repetindo bordões contra eles.

Há um adicional que parece simples, mas escangalhou beyond repair a nossa estratégia de chamar a atenção por notícias, para depois falarmos de livros e assuntos mais elevados. Trata-se da própria dinâmica das redes sociais. Quase ninguém mais acessa a página inicial de um site – tanto que ficamos 4 anos fora do ar e quase ninguém notou a total ausência de atualizações. Sendo assim, como poderíamos chamar a atenção das pessoas pelas pequenas notas para os grandes textos? 

Na prática, ficamos sempre dependentes das redes sociais. E, na algoritmolândia, as regras também mudaram bastante. Houve uma época longínqua, na Antiguidade do Twitter, em que você simplesmente postava o que publicava e, no máximo, precisava se preocupar em divulgar em um bom horário. As postagens eram exibidas conforme o horário, numa agradável anarquia com o relógio. Hoje, tudo depende de curtida – logo, fazer um único post que não “viralize” – ou seja, não envolva política comezinha, que renda múltiplos cliques em um mundo monotemático, ao invés de poucas visualizações, mas mais avançadas – você logo será excluído in toto pelo mecanismo dos algoritmos da superficialidade.

Como falar de algo que exija mais dedicação sobre este pano de fundo?

Entretanto, numa era em que poucos lêem, estes poucos continuam a ser o 1% superior das grandes discussões. Se há pouquíssimos anos podíamos sonhar com uma elite de uns 10% - ou 5% que fossem – preocupados com livros, com pensamentos e história, com legado e memória, com imaginação e ordem – hoje talvez tenhamos de lidar com apenas 1%. Mas somos resistência, ainda que nossa companhia seja menor. O século XXI será dominado justamente pelos poucos capazes de atenção e concentração, que não são dominados pela sanha mercadológica, passivos diantes de feeds que apenas parecem naturais e orgânicos.

O século XXI será ainda mais o século dos escritores, em plena era de inteligência artificial e feeds repetitivos. Os poucos, inglórios e esquecidos guardiões da cultura têm buscado outros refúgios para as idéias. Muitos prefeririam as newsletter, por uma curiosa aposta: o e-mail, a mais antiga ferramenta ampla de comunicação da internet, também por isso se tornou inatingível e incapturável ao controle censor dos algoritmos. Ou seja, você não “ranqueia” bem ou mal conforme o conteúdo ou as palavras-chave. Você também não está constantemente sob um escrutínio tirânico dos ditadores de plantão.

Esta conjuntura levou a um fenômeno interessante nos últimos anos: a ascensão das newsletter culturais, para aqueles que querem estudar e aprender de verdade algo acima do jogo de cartas marcadas e temas repetidos das redes. É uma mistura de low tech com hiper high tech. Pareceu-nos o melhor dos cenários para retomarmos a nossa missão.

Porque o monotematismo cansa. Nunca conseguimos falar da curiosa necessidade não-utilitária de ler Homero, da crítica ao saudosismo estritamente saudosista de Cervantes, de como o poder é mais compreendido lendo-se Hamlet, Machbeth, Rei Lear ou Othelo do que se atualizando sobre deputados e intrigas de redes se começamos a comentar notícias em demasia. Ainda mais pela rotulagem típica dos reducionistas e facilitadores de sentimentos do sistema: de que adianta explicar a origem dos males do mundo na Primeira Guerra Mundial ou como o romance A Montanha Mágica, de Thomas Mann, se nossos textos que envidam nossos maiores esforços não serão apenas pouco lidos – seremos mesmo penalizados pelo algoritmo por não ganhar tantos cliques fáceis, abandonados menos de 10 segundos depois? Lembrando que tudo isso já fizemos em nossos cursos na Cursology.

Tudo isto nós fizemos, mas ou se viraliza, ou se morre. E nem sempre essa dinâmica da necessidade de é possível para estudar movimentos mais complexos, como entender a filosofia por trás da tal democracia, ou a poética civilizacional por trás da geopolítica, ou quanta literatura explica a islamização da Europa e a agenda woke dos grandes conglomerados financeiros, ou quanta teologia é preciso para saber a diferença entre Irã e Arábia Saudita, ou quanta literatura é culpada ou redentora na decadência espiritual do Ocidente. Tudo isto merece muito mais estudo e comentário do que intriga de político e de rede social. Mas justamente por esta dinâmica, nada disso… viraliza. E acabaremos com muito esforço em vão.

O modelo de escrever em uma newsletter pode ter menos de 1% do público de um grande canal de notícias no YouTube – ou menos de 0,0001% – mas conseguimos sobreviver falando do mais importante – e do que gostamos, que é tão ou mais importante. Afinal, muitos se cansam desses textos repetidos, pegando um tweet e transformando em grande assunto (o que é como escavar um pires) e também dos agora hipermultiplicados textos criados por inteligências artificiais, que ficam ainda mais repetitivos quando se percebe a sua estrutura (“A política, em sua essência mais profunda, não é sobre deputados ou cargos, mas sobre cultura, pois valores, crenças e narrativas coletivas moldam decisões, instituições e comportamentos ao longo do tempo. Quando a cultura se transforma, a política inevitavelmente a acompanha, mostrando que toda disputa política é, antes de tudo, uma disputa cultural”).

O mundo é dos escritores, artistas e intelectuais, aqueles que carregam a civilização nas costas, e não dos vendilhões do templo dos algoritmos. Estamos aqui para cumprir nosso papel. Desde a época do impeachment de Dilma Rousseff, passamos a achar até alienante achar que dava para ignorar a história acontecendo passando pela janela para nos refugiar nos livros… mas também percebemos, tragicamente, que o sistema era maior do que nosso ímpeto sem estratégia. E que sem uma reforma cultural, vinda de uma base intelectual forte, todo o castelo de cartas seria soprado em um instante – como o foi, e como nosso professor Olavo de Carvalho havia vaticinado. 

Está na hora de cumprir nossa verdadeira vocação e fazer o trabalho verdadeiro, ainda que com a ordem trocada: está na hora de dar um tempo em Brasília e voltar a visitar e discutir a estante.

Claro, enquanto isso, continuaremos com nosso canal no YouTube (já está inscrito?). Também aprendemos que devemos cumprir os algoritmo, e produzir shorts, reels, cortes e a coisa toda. Mas não precisamos ser mais um no meio de um oceano de repetições superficiais. Podemos cuidar de nosso projeto original de ser um portal de idéias e livros, principalmente daquilo que desafie até o senso comum já estabelecido dentro de nossa bolha.

Por isso nosso símbolo desde sempre foi a âncora. Apenas com uma âncora se enfrenta uma tempestade. É a âncora que permite firmeza, ao invés de ficar boiando ao sabor das ondas do momento. Só quem tem uma âncora pode atravessar um oceano. A âncora é a segurança que permite a esperança. É com uma âncora que podemos navagera contra a corrente.

Então, não deixe de acompanhar nosso podcast Guten Morgen (que logo irá reestrear pela terceira vez), acompanhar as entrevistas do SensoCast às quintas-feiras, às 20h e seguir o nosso canal, que vai falar cada vez mais de livros e idéias além do óbvio. Assim como nosso site está se transformando em uma newsletter, também estamos transformando o nosso canal em um Booktube, muito mais do que um canal de comentários políticos – isto sem falar em séries, filmes e toda a cultura que faz de fato a nossa cabeça. 

Também estamos reorganizando nosso conteúdo para dar dicas de vida intelectual sem frescura, nossas análises da mídia, nosso diário da vida sob a censura, a tragédia da geopolítica como sobreviver à guerra cultural e à anarco-tirania e, claro, nossas provocações culturais de sempre. Mais do que nossa missão, é do que gostamos de falar. Só achamos um bom método para sobreviver enquanto isso.

E não se esqueça de nosso curso sobre a Primeira Guerra Mundial, nossa Formação Senso Incomum com todos os nossos cursos mais curtos, nosso curso de retórica para crianças na Bright Minds (utilize o nosso link) e tantos outros materiais estamos preparando para este ano!

Nosso objetivo aqui no site é publicar 2 artigos gratuitos por semana, mais um exclusivo para os membros. Assim, podemos sobreviver sem depender tanto do Google e das redes. Espero contar com sua inscrição para podermos crescer!

E, com todo este cenário descrito, cremos que fique claro até aos não-especialistas como o mundo fica melhor com escritores que escrevem com o coração e revisam com o cérebro, e como isto é tão superior aos textos acachapantes criados por inteligências artificiais. Com um detalhe divertido. Ao contrário de nosso professor Olavo de Carvalho, adoramos este plural majestático, escrevendo tudo com “nós”, ao invés de “eu”. Não por arrogância coletiva, mas justamente por uma curiosa humildade de nos diluir em meio ao todo, em afogar um pouco o ego com um compartilhamento forçado com nossos leitores e companheiros. É uma curiosa parceria, uma comunidade, como sentimos que é escrever – nunca um ato solitário, nunca tão silencioso quanto parece. Baudelaire escreveu do “Hypocrite lecteur, — mon semblable, — mon frère!”. Talvez possamos falar de nossos pobres leitores – nossos iguais na luta pela vida na decadência, ainda que sejamos vítimas e algozes, partícipes e saudosistas de algo que não vivemos neste jornada.

Seja bem-vindo de volta e se inscreva para ajudar nosso trabalho – que também é seu, afinal!

You’ve successfully subscribed to Senso Incomum
Welcome back! You’ve successfully signed in.
Great! You’ve successfully signed up.
Success! Your email is updated.
Your link has expired
Success! Check your email for magic link to sign-in.